Você sabia que é possível passar por duas puberdades?

Alô filosofia, por que podemos ser binários na medicina?

Na medicina, a puberdade é o período em que amaduremos nosso sistema reprodutor e adquirimos as características adultas do sexo que nascemos. Todavia, nem todos querem tais características. Na verdade, algumas pessoas podem desejar possuir as características adultas do “sexo oposto”.

Antes de mais nada, preciso fazer um adendo importante. Alguns poderão dizer: “Nossa Mariangela, esse seu discurso está um tanto binário!”. Eles terão certa razão. Contudo, hoje o assunto é endocrinologia e falarei de dois importantes hormônios. Tais hormônios são antagônicos na “régua médica” de características sexuais.n

Pessoas de outras áreas podem achar o discurso médico equivocado por ainda usar termos como “feminino”, “masculino”, “características femininas” ou “características masculinas”. O problema de fugir do vocabulário médico e dessa régua fenotípica imaginária é ficar aquém de ser entendida pelos colegas e até mesmo pelo paciente.

Anos atrás eu não estaria me desculpando por usar “características femininas” e “características masculinas”.  Porém, são as ferramentas que possuo para melhor ser entendida.

Dois hormônios, dois polos 

O equilíbrio entre dois hormônios, testosterona e estrogênio tornará o adolescente homem e a adolescente mulher. Aqui os termos homem e mulher são utilizados em um sentido limitado, significa um padrão físico que esperamos encontrar em uma determinada faixa etária.

Ao falar de características sexuais estamos imaginando uma régua em que há o polo escrito homem e o polo escrito mulher. Neste esperamos encontrar um padrão fenótipo de uma criança que nasceu com o gene XX (em TODAS suas células); com gônadas femininas; com genitália interna feminina; com genitália externa feminina; sem alterações hormonais; sem alterações no hipotálamo e/ou na hipófise; sem alterações nutricionais, sem inúmeros fatores biológicos que podem impedir alcançar o extremo da régua. (Será que é por isso que médicos odeiam a polarização? Certamente não).

Assim a frase “Na biologia/medicina só existe XX (mulher) e XY (homem)” é ostensivamente estúpida, uma falácia tão rapidamente desmentida que me parece estranho ver alguém atestando tamanha fragilidade acadêmica. É a ideia de alguém que enxerga uma régua apenas com polos. Ignorando uma lógica simples, a reta pode conter dois pontos, mas uma reta não é dois pontos.

Há inúmeras mulheres com útero, ovários e com o gene XY. Há homens com pênis e útero. Há pessoas com ovários e testículos. Há tantos padrões biológicos de sexo quanto há de fenótipos dentro dos polos que separam o padrão fenotípico do “homem” e da “mulher”.

Na verdade, para muitos a tal régua pode ser quebrada, nem se fosse uma reta possuiria serventia. Realmente, do ponto de vista cultural, apesar de permitir infinitos pontos a reta (unidimensional, sem curvas ou ângulos) é insuficiente para aqueles que não desejam tender a um sentido “feminino” ou “masculino”.

Apesar disso, essa régua é útil para a medicina e ajuda aqueles que desejam andar casas mais para a direita ou para esquerda daquilo que se espera do corpo de um homem ou do corpo de uma mulher.

Assim, há uma série de pré-conceitos, conceitos prévios, entre eles o fundamental estudo de genética e desenvolvimento embrionário humano.

O meu “torna-se mulher pelo estrogênio”, apesar de limitado frente a Simone de Beauvoir, não é comparado à limitação do “Deus só fez o homem e a mulher, portanto, só há o padrão feminino e masculino de corpo”.

__

Na abordagem endocrinológica dos homens trans, (aquele que nasceu com órgão reprodutivo feminino) rotineiramente receitamos testosterona. Com isso induzimos uma segunda puberdade. Ele poderá passar, em partes, por aquilo que ocorre com os homens cis (aqueles que nasceram com órgãos reprodutores masculinos).

Em um certo período da infância, a hipófise, uma parte do nosso encéfalo, aumenta o estímulo para a produção de testosterona.  Resulta disso o crescimento dos testículos. Estes por sua vez produzem mais o hormônio responsável pelas chamadas características masculinas.

Quais são essas “características masculinas”:

O desenvolvimento sexual masculino na sequência em que ocorre:

  • Primeiro o aumento do tamanho do escroto (a pele que fica em torno dos testículos) e aumento dos testículos. (Início por volta dos 10 anos até 17 anos)
  • Mudança da voz (o início também ocorre por volta dos 10 anos)
  • Alongamento do pênis (ao redor dos 11½ a 13 anos de idade)
  • Crescimento de pelos pubianos
  • Estirão – faixa dos 12 anos a 17 anos
  • Após dois anos do início do crescimento dos pelos pubianos, se inicia o crescimento dos pelos faciais e axilares.
  • Mudança do biotipo, crescimento muscular.

A faixa de idade para início da puberdade se encontra entre 10 e 14 anos. No entanto, pode ter início aos nove, algo considerado normal.

 E a história da segunda puberdade?

Você pode perguntar, um homem trans vai se beneficiar de receber testosterona? Já que vimos que durante a puberdade esse hormônio é responsável pelo aumento do escroto, dos testículos, do pênis, das vesículas seminais e da próstata; e lembrando que o homem trans não possui o sistema reprodutor masculino, então a resposta é simples: um homem trans que busca uma maior aproximação com os as “características masculinas” pode se beneficiar e muito da testosterona. Isso por causa do que chamamos de características masculinas secundárias. 

Talvez você já tenha ouvido esse termo “características masculinas secundárias”. Quando dizemos isso queremos falar sobre características que não fazem parte do sistema reprodutor masculino; por exemplo, o crescimento do pelo facial, a mudança da composição muscular e da voz. Inclusive a testosterona, isoladamente ou atrelada a outros procedimentos pode proporcionar um aumento importante do clitóris.

Logo nos primeiros meses utilizando o hormônio as mudanças já se iniciam. A fim de amenizar a ansiedade, deve-se esclarecer ao homem trans que tais mudanças não são imediatas.

No outro polo da régua encontra-se o estrogênio, fundamental para o desenvolvimento das mamas, vagina, ovários e útero. Da mesma forma que o homem trans, a mulher trans também pode se beneficiar do hormônio que dá características femininas, através do estímulo feito para desenvolver características sexuais secundárias.

Assim, a mulher trans adulta passará por outra puberdade, que tem como marco o aparecimento do broto mamário. Com a continuidade do tratamento, os seios continuam a se desenvolver e crescer, ocorre alterações na conformação do corpo, assim há o aumento da gordura acumulada nos quadris e coxas.

Imagine uma mulher trans passando a primeira puberdade e vendo seu corpo mudar. Ela sente o aumento dos testículos, o engrossamento da voz, o nascimento de barba.  Todas essas mudanças não são as da verdadeira puberdade, ou melhor dizendo, a da puberdade que ela deseja. Imagine agora, quantas pessoas não possuem informações médicas sobre tratamentos? Quantas pessoas usaram fóruns e comunidades de internet para saber qual hormônio usar. É um problema de saúde pública.

Mariangela Cabelo

O encontro do homem com a mulher

Amanda é uma mulher alta de nariz comprido e olhos grandes. Quando coloca seus óculos, ela nos passa a impressão de uma moça interessada e pronta a escutar. São óculos bonitos, combinam com a cor de sua pele.  Essa mulher possui uma aparência que chama a atenção, podemos analisar por horas seus trejeitos e seu corpo. Todavia, nada disso iria fazer você sequer imaginar corretamente quem é a Amanda e como ela se parece.  Isso porque ela possui uma marca em seu corpo, que a caracteriza como mulher.

Que marca é essa? O corpo de Amanda foi marcado pela solidão. Visível como ferro incandescente sobre a pele. Ela sente o vazio, pois não sabe ao certo o que existe dentro de si. Essa mulher alta de nariz comprido e olhos grandes, também possui um cabelo escuro e cacheado. Ela já está indo para terceira década de vida e apesar disso não possui amigos e seus familiares não a procuram.

Um dia apareceu um homem. Ele pediu para conversar com Amanda. Era um homem alto, magro, com a barba feita e poucos cabelos, os que sobraram eram brancos. Ele era calmo, sua voz transmitia ternura e seu jeito era sereno. Quando indagadas por ele, as pessoas se abriam e eram francas. Deus o havia enviado, pois nem Ele suportava mais as súplicas de Amanda. Ela implorava que o criador concedesse ao menos uma conversa franca em sua vida. Ela implorava ao menos cinco muitos de companhia, estava extremamente sozinha.

Quando Amanda ficou sabendo do encontro se preparou por dias para recebê-lo, nunca esteve tão ansiosa. Algum ser humano a havia procurado. Ela se arrumou o máximo que podia. Infelizmente não tinha maleta de maquiagem, mas se tivesse ela usaria. Amanda penteou e prendeu os cabelos para trás.  Arrumou a sobrancelha e o buço. Colocou os óculos de maneira especial nesse dia.

Depois de 461 semanas sozinha, era a primeira vez que ocorreria uma interação real. O homem vestia uma camisa branca como o de costume. Antes de encontrá-la, conversou com outras mulheres que estavam submetidas ao mesmo sistema no qual Amanda se encontrava. O homem fazia um trabalho primoroso, como nenhum de seus colegas ousou fazer. Ele só não imaginava que todo seu trabalho seria esquecido por uma marca física de Amanda.

A hora do encontrou chegou, Amanda estava de pé em frente ao homem. Ele a perguntou algumas coisas e ouvia com atenção as respostas, ambos estavam completamente atentos um ao outro. Nada mais existia naqueles poucos minutos de interação, apenas o diálogo autêntico entre os dois.

O homem percebeu instantaneamente a marca de Amanda, mas guardou a última pergunta para indagar esse assunto. Aquele senhor era um médico, mas não era qualquer médico, era dos bons. Era um médico que enxergava olhos, um médico que entendia um tom de voz e que conhecia o corpo e seus gestos.

O doutor tinha idade para ser o pai de Amanda e por alguns segundos ele foi. Quando a questionou: “Minha filha, essa marca é marca de solidão”?  Amanda primeiro respondeu com o corpo, se encolhendo envergonhada de sua marca estar tão exposta assim. Abaixou a cabeça, os dedos de uma mão tocaram a outra, os olhos se encheram rapidamente e um “sim” baixo e triste saiu de boca.

Um forte instinto paterno se abateu sobre o homem, sentiu pena daquela moça, tão nova e com vida tão desgraçada, gostaria de poder ter uma máquina do tempo e com a mão tirar ela dá vida que a esperava. Ele perguntou se podia lhe dar um abraço, ela fez um gesto afirmativo. Quando ele a abraçou ela fechou os olhos, sentiu aquele abraço na alma, tentava em vão lembrar se um dia já tinha recebido alto tão significativo como um abraço generoso.

Logo as pessoas souberam da visita, o encontro com Amanda repercutiu.  A solidão daquela mulher as tocava profundamente. Enquanto o homem era aclamado como exemplo de ser humano, pessoas mandavam cartas e presentes para amenizar o sofrimento de Amanda. Esse seria o fim da nossa história. O dia que o médico conversou com Amanda.

Porém, aquele homem colecionou muitos inimigos ao longo do tempo, inclusive alguns milicianos. Ocorreu uma vez um massacre, naquele mesmo Sistema que Amanda estava. E ele denunciou o que tinha ocorrido ali. Corpos encontrados com tiros nas costas, dados enquanto as pessoas fugiam.

Anos depois, era a hora de fazer esse médico sofrer, fazer com que parasse de ser tão bonzinho assim. Esses inimigos do doutor trataram de ir atrás de Amanda, foram aumentar aquela marca. Agora ela seria mais castigada, mais exposta, porque recebeu algo que não podia. Recebeu algo que gente como Amanda não pode receber. Tentavam mostrar que o homem agiu errado. Ela não merecia o abraço porque na verdade Amanda era a prisioneira Susy.


Continue a ler


Drauzio Varella e a prisioneira Susy:

Há décadas Drauzio trabalha em presídios e já escreveu inúmeros livros sobre o tema. Inclusive, contando episódios semelhantes daquele ocorrido com Susy. Esses episódios não são o tema central dos livros, do mesmo modo o episódio do abraço não era o tema central do programa da Globo.

Antes de saberem o motivo da prisão de Susy, a internet passou a registrar as frases “Drauzio presidente”, “Drauzio ministro” e outras que compunham os “trending topics”. Varella se tornou herói nacional, mas não foi pelo seu trabalho de décadas, não foi pela sua dedicação ao SUS, nem por expor o ocorrido no massacre do Carandiru. Drauzio o homem que enfrentou a milícia e a corrupção para relatar como foi encontrado os corpos dos detentos.  Drauzio o homem que levou naquele domingo à noite, em cadeia nacional, um problema invisível para a sociedade.  Nada disso era motivo suficiente para a aclamação dos internautas, mas todo um tumulto foi causado por um simples gesto de humanidade.

O médico não gostou daquela distorção de foco. Ele se irritou com o que aconteceu e se manifestou na Folha de São Paulo no dia 5 de março: “Esse mundo está louco”, e continuou: “Vocês querem um Salvador Pátria. Esse é o drama do país, a gente se decepciona com um e corre atrás de outro que seja o oposto. Vamos ficar assim até quando?”.

Parece até que ele previu o que ocorreria dias seguintes. Ele foi duramente perseguido por políticos, jornalistas e internautas. Julgaram que Drauzio Varella não agiu de modo ético, não agiu de modo moral, pois ele abraçou alguém presa por estupro de menor.

Diante dessa situação talvez alguns possam invocar um problema ético-moral. De fato, isso envolve valores e, portanto, é algo que está no campo ético-moral. Mas não se trata propriamente de um dilema moral. É importante que tenhamos em mente que um dilema ético deve envolver decisões sobre valores. Isso não ocorreu. Drauzio não entrou em tensão ética quando do abraço em Susy.  Se ele conhecesse a situação jurídica inteira de Susy aí sim ele estaria diante de um dilema ético. Assim, o problema foi colocado a posteriori nas costas dele sem ter sido efetivamente um dilema ético-moral de Drauzio.

O comportamento de Varella, ou seja, sua práxis médica, tem por base o não envolvimento com a vida pessoal dos seus pacientes. Esse comportamento, segundo ele próprio, é o seu escudo contra dilemas éticos-morais. Ele não precisa ficar optando. Assim ele nos conta no livro Carcereiros. Nesse livro há o caso do médico, ele próprio, que atravessa a cidade para tentar resolver a enfermidade do doente, buscando pessoalmente o remédio de que necessitava. Só depois disso fica sabendo do tipo de crime do paciente: o estupro e morte de uma criança, além do assassinato dos avós a paulada.  Drauzio se pergunta: “Se eu soubesse disso teria dedicado tantas horas a esse prisioneiro, deixando de fazer outras tarefas do meu dia a dia? “ Ele não nos responde.

No vídeo em resposta ao caso do abraço em Susy vemos a postura do médico que segue um milenar código de ética médica, o de não deixar de atender um enfermo seja quem for.

Veja o que nós fizemos nesse período:

Placar da vida

Das tantas piadas feitas pelo governo Bolsonaro, uma das mais cruéis, sem dúvida, é a que se refere ao “Placar da vida”.

Para contextualizar, sabe-se que a Organização Mundial da Saúde (OMS) já declarou o Brasil como epicentro da pandemia da Covid-19, o que, consequentemente, significa que o nosso país está em uma situação muito frágil e complicada. Com uma alta taxa de contágio, o vírus encontrou aqui um habitat ideal para se multiplicar. Apesar da brutal subnotificação, os dados oficiais indicam meio milhão de infectados pela nova doença. O sistema de sepultamentos está em apuros, com máquinas tendo de abrir grandes valas na terra. No cemitério, os corpos que se acumulam em suas instalações frias, pedindo alguma vaga para o descanso final, perfazem 30 mil ex-cidadãos.

O “Placar da vida” são posts que aparecem nas publicações tanto da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) quanto, agora, do Ministério da Saúde. Esse placar informa o número de pacientes que tiveram a doença e não faleceram pelo coronavírus. Esses posts fazem um serviço ideológico par excellence, ou seja, trabalham com uma falsa consciência. Trazem a ideia de que o Brasil tem um governo “da vida”, não “da morte”, com o argumento de que o Planalto não faz a histeria da mídia anunciando o número dos mortos.

A falsa consciência que o governo federal deseja passar é que a Covid-19 é uma “gripezinha”, que a maioria não morrerá e que muitas pessoas pegaram a doença e não morreram. Visto que toda ideologia tem uma parte de verdade, os posts trazem um número verdadeiro de pacientes sobreviventes até então.

Em verdade, tudo não passa de um grande escárnio, pois é o governo de Bolsonaro que está usando a palavra “vida”.

Além disso, esse placar não apenas esconde as mortes por Covid-19, mas também ameniza a culpa do responsável por elas. Agora, talvez você pense: o responsável pelas mortes desses brasileiros é o agente etiológico, o SARS-CoV-2, nome de uma fita odiosa de RNA. Se seu pensamento é esse, e somente esse, você está [meio] errado. O tópico agente etiológico é uma meia verdade.

O SARS-CoV-2 é uma estrutura tão simples que divide a opinião dos cientistas sobre se é ou não um ser vivo. Ele não sobrevive muito tempo fora de nossas células e, com uma boa esfregada de detergente, sabonete ou álcool, é destruído. Como é que essa coisa ínfima, comparada à majestade e à organização do corpo humano, conseguiu o que conseguiu?

Bem, esse pedacinho de RNA conseguiu o que conseguiu porque encontrou pernas e braços humanos. Outrossim, aqui, no Brasil, o vírus vestiu a faixa presidencial. Em uma espécie de simbiose entre o desejo do vírus e o do presidente, nasceu o “Bolsovírus”. Similarmente à série infantojuvenil Power Rangers, o SARS-CoV-2 encontrou no Brasil um Megazord, ou seja, aqui, teve seus poderes ampliados pelas instituições republicanas. Elas estavam à sua disposição e ao seu serviço.

Foi assim que o “Bolsovírus” corroeu o Ministério da Saúde, o Conselho Federal de Medicina (CFM), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e estruturas que, em outros países, ajudaram a derrubar o coronavírus. Enquanto algumas nações encerram suas quarentenas, o Brasil tem um SARS-CoV-2 realizando plenamente sua vontade. Friedrich Nietzsche ficaria orgulhoso de ver um conceito vivo, a “vontade de potência”, circulando sorridente, enquanto espalha um caminho de corpos (como costuma dizer o filósofo Paulo Ghiraldelli em seu canal no YouTube). Aqui, o SARS-CoV-2 povoou as ruas e os pulmões, tanto quanto há estrelas no firmamento.

Um dia, “Bolsovírus”, com seu corpo humano, terá de pagar o preço da destruição causada por ele. Em Haia, no Tribunal Internacional de Justiça, esse “Placar da vida” não servirá para amenizar a culpa do responsável pela morte dos nossos irmãos brasileiros. Afinal, o SARS-CoV-2 não abraçaria tantas pessoas com seu manto sombrio se não tivesse recebido a espetacular ajuda de Bolsonaro!

Mariangela Cabelo
Campo Grande, 31/05/2020

Páginas: 113 e 114 do livro Pandemia e Pandemônio: Ensaios sobre biopolítica no Brasil/Cabelo, São Paulo: CEFA Editorial, 2020. Cabelo, Mariangela; Ghiraldelli Jr., Paulo. (Org.)

Devemos despolitizar o vírus?

“Politizaram o vírus”. Proferida e preferida dos médicos, cientistas e jornalistas, essa sentença, segundo eles mesmos, explica a causa do mal. A ideia é a de que a politização da pandemia é a responsável pelo sucesso de marketing da hidroxicloquina. O desprezo à opinião dos especialistas, os ataques de todo tipo a ciência e ao isolamento social seriam também frutos dessa “politização”. Será que é correto pensarmos assim?“Politizaram o vírus”. Proferida e preferida dos médicos, cientistas e jornalistas, essa sentença, segundo eles mesmos, explica a causa do mal. A ideia é a de que a politização da pandemia é a responsável pelo sucesso de marketing da hidroxicloquina. O desprezo à opinião dos especialistas, os ataques de todo tipo a ciência e ao isolamento social seriam também frutos dessa “politização”. Será que é correto pensarmos assim?

A resposta é enfaticamente um não! E podemos citar alguns motivos para isso: primeiro pela falsa relação de causa e efeito que a frase gera. Segundo que ela elimina a possibilidade de um diálogo mais esclarecedor, que poderia ajudar a traçar rotas mais claras para resolver o grande caos que se apoderou do país.

Na verdade, fica claro, para os que estudam filosofia política, a confusão feita com os conceitos básicos. Por exemplo, muitos desses médicos e cientistas acertariam se tivessem dito “ideologia” no lugar de “politização”. Ideologia significa uma falsa consciência. Na ideologia, existe uma certa verdade; não é puramente uma fake news. Evidencia-se a ideologia na questão do isolamento vertical. Para que o isolamento vertical pudesse ter força, seria necessário que ele seguisse alguma lógica. Assim, usou-se uma certa verdade: a chance de o vírus ceifar mais a vida dos idosos. Se assim o é, por que todos devem pagar o preço do isolamento social? Essa foi a ideologia do Planalto. Isso foi o que Bolsonaro queria que o ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta defendesse.

Nós, da ciência, deveríamos ficar atentos à ideologia e às suas meias verdades. A ideia do isolamento vertical estenderia a duração da pandemia se fosse colocada em prática. Colocaria a população jovem e adulta em risco, pois
eles podem morrer com a doença, apesar de em menor número se comparado aos que possuem alguma morbidade. Esses adultos, uma vez livres do isolamento vertical, chegariam em casa, pondo seus familiares mais velhos em risco, expondo-lhes ao vírus e aumentando as chances de infecção. O isolamento vertical foi descartado pela maior parte dos países, pois geraria mais mortes, um aumento do tempo para a pandemia passar e, inclusive, uma piora na economia.

Agora entendemos que a ideologia era e é, se não notada, uma inimiga da ciência. Quero enfatizar aqui que o problema não é meramente de nomenclatura ou uma disputa mesquinha de terminologias acadêmicas. O problema é começarmos uma conta utilizando a fórmula errada e as variáveis erradas. Não chegaremos a um bom resultado. Devemos tentar evitar nosso comprometimento com a ideologia, mas não com a política. Se afastarmos a política, afastaremos justamente a chave que poderia revolver os nossos problemas.

Outro motivo, e talvez o mais importante é a ideia de que a associação do especialista com a política o macularia. A palavra política parece ser um palavrão, um par de óculos embaçador que tira a clareza do discurso médico. Usar a palavra política de maneira positiva, na mentalidade dos especialistas, os deixa com pouca autoridade para falar de seus assuntos técnicos. Na verdade, nesse caso, o partidarismo é o grande medo do médico, e não propriamente a política. Digo isso pois penso no exemplo do Drauzio Varella, que, apesar de não ter medo da palavra política, não é um médico partidário. De fato, o médico partidário perde a liberdade de poder criticar todos os partidos e suas políticas. Afinal, ele não irá criticar o próprio partido. Será que todas as políticas públicas, principalmente as da saúde, merecem passar ilesas das críticas?

As vozes da ciência e da medicina devem apontar todo e qualquer erro. Se não temos isso em mente, o médico fica com medo de falar que é o presidente quem está ferrando tudo. Aliás, isso é óbvio, todos veem. Hoje, até mesmo as revistas científicas, como a Lancet, alertam que Bolsonaro precisa sair.

Portanto, o médico e o cientista que puxarem o coro a favor do impeachment não serão partidários. Prezarão, antes, pelo seu ministério, pelas instituições, pela medicina e pela própria profissão. Saber que a medicina tem um casamento profundo com políticas públicas de saúde faz parte da formação de um bom médico.

Além disso, a nossa cultura ocidental nasceu da polis e, por isso, não podemos fugir da política, pois é com ela que podemos estancar o número de almas levadas. A seguir, explico-me melhor.

Os problemas de saúde de um país não se revolvem dentro de um consultório, mas, sim, junto e justamente com políticas. Exemplos incontestes são o diabetes e a obesidade, que afligem tantos brasileiros e dispensam tantas consultas no SUS e nas clínicas particulares. A política pública de saúde que obrigou que refrigerantes, biscoitos, bolos e etc. tivessem suas quantidades de açúcar diminuídas fez mais pelo país do que anos do nosso trabalho no consultório em relação ao diabetes e à obesidade.

No quesito coronavírus, isso se repete. O trabalho do médico ajudando paciente por paciente no hospital é como um passarinho que enche o bico de água para apagar um incêndio na floresta. Já o presidente da República está com um maçarico acesso, com 10 km de diâmetro, mirando para as árvores. Será que é tão difícil ter essa clareza que as revistas internacionais tiveram?

Médicos, prestem atenção! Escutem a Lancet. Nenhum trabalho de vocês será suficiente para estancar o mal da Covid-19 do país, quando a própria peste usa a faixa presidencial, quando o próprio SARS-CoV-2 tem suas vontades atendidas pelo Bolsonaro. Enfim, do meu ponto de vista, parece que há uma falsa “isenção” da parte dos médicos. Sabemos bem o que eles fizeram “no verão passado”. Não estou tirando o mérito de os médicos irem para as ruas e protestarem contra o governo do PT e de lutarem pela sua profissão. Foi um ato lícito. No entanto, hoje, os cidadãos pedem, como brasileiros, para que lutem também pela saúde e pela ciência, pois, se elas acabarem, a própria profissão de vocês já não precisará mais ser defendida!

Mariangela Cabelo
Campo Grande, 30/05/2020

Páginas: 111, 112 e 113 do livro Pandemia e Pandemônio: Ensaios sobre biopolítica no Brasil/Cabelo, São Paulo: CEFA Editorial, 2020. Cabelo, Mariangela; Ghiraldelli Jr., Paulo. (Org.)