O encontro do homem com a mulher

Amanda é uma mulher alta de nariz comprido e olhos grandes. Quando coloca seus óculos, ela nos passa a impressão de uma moça interessada e pronta a escutar. São óculos bonitos, combinam com a cor de sua pele.  Essa mulher possui uma aparência que chama a atenção, podemos analisar por horas seus trejeitos e seu corpo. Todavia, nada disso iria fazer você sequer imaginar corretamente quem é a Amanda e como ela se parece.  Isso porque ela possui uma marca em seu corpo, que a caracteriza como mulher.

Que marca é essa? O corpo de Amanda foi marcado pela solidão. Visível como ferro incandescente sobre a pele. Ela sente o vazio, pois não sabe ao certo o que existe dentro de si. Essa mulher alta de nariz comprido e olhos grandes, também possui um cabelo escuro e cacheado. Ela já está indo para terceira década de vida e apesar disso não possui amigos e seus familiares não a procuram.

Um dia apareceu um homem. Ele pediu para conversar com Amanda. Era um homem alto, magro, com a barba feita e poucos cabelos, os que sobraram eram brancos. Ele era calmo, sua voz transmitia ternura e seu jeito era sereno. Quando indagadas por ele, as pessoas se abriam e eram francas. Deus o havia enviado, pois nem Ele suportava mais as súplicas de Amanda. Ela implorava que o criador concedesse ao menos uma conversa franca em sua vida. Ela implorava ao menos cinco muitos de companhia, estava extremamente sozinha.

Quando Amanda ficou sabendo do encontro se preparou por dias para recebê-lo, nunca esteve tão ansiosa. Algum ser humano a havia procurado. Ela se arrumou o máximo que podia. Infelizmente não tinha maleta de maquiagem, mas se tivesse ela usaria. Amanda penteou e prendeu os cabelos para trás.  Arrumou a sobrancelha e o buço. Colocou os óculos de maneira especial nesse dia.

Depois de 461 semanas sozinha, era a primeira vez que ocorreria uma interação real. O homem vestia uma camisa branca como o de costume. Antes de encontrá-la, conversou com outras mulheres que estavam submetidas ao mesmo sistema no qual Amanda se encontrava. O homem fazia um trabalho primoroso, como nenhum de seus colegas ousou fazer. Ele só não imaginava que todo seu trabalho seria esquecido por uma marca física de Amanda.

A hora do encontrou chegou, Amanda estava de pé em frente ao homem. Ele a perguntou algumas coisas e ouvia com atenção as respostas, ambos estavam completamente atentos um ao outro. Nada mais existia naqueles poucos minutos de interação, apenas o diálogo autêntico entre os dois.

O homem percebeu instantaneamente a marca de Amanda, mas guardou a última pergunta para indagar esse assunto. Aquele senhor era um médico, mas não era qualquer médico, era dos bons. Era um médico que enxergava olhos, um médico que entendia um tom de voz e que conhecia o corpo e seus gestos.

O doutor tinha idade para ser o pai de Amanda e por alguns segundos ele foi. Quando a questionou: “Minha filha, essa marca é marca de solidão”?  Amanda primeiro respondeu com o corpo, se encolhendo envergonhada de sua marca estar tão exposta assim. Abaixou a cabeça, os dedos de uma mão tocaram a outra, os olhos se encheram rapidamente e um “sim” baixo e triste saiu de boca.

Um forte instinto paterno se abateu sobre o homem, sentiu pena daquela moça, tão nova e com vida tão desgraçada, gostaria de poder ter uma máquina do tempo e com a mão tirar ela dá vida que a esperava. Ele perguntou se podia lhe dar um abraço, ela fez um gesto afirmativo. Quando ele a abraçou ela fechou os olhos, sentiu aquele abraço na alma, tentava em vão lembrar se um dia já tinha recebido alto tão significativo como um abraço generoso.

Logo as pessoas souberam da visita, o encontro com Amanda repercutiu.  A solidão daquela mulher as tocava profundamente. Enquanto o homem era aclamado como exemplo de ser humano, pessoas mandavam cartas e presentes para amenizar o sofrimento de Amanda. Esse seria o fim da nossa história. O dia que o médico conversou com Amanda.

Porém, aquele homem colecionou muitos inimigos ao longo do tempo, inclusive alguns milicianos. Ocorreu uma vez um massacre, naquele mesmo Sistema que Amanda estava. E ele denunciou o que tinha ocorrido ali. Corpos encontrados com tiros nas costas, dados enquanto as pessoas fugiam.

Anos depois, era a hora de fazer esse médico sofrer, fazer com que parasse de ser tão bonzinho assim. Esses inimigos do doutor trataram de ir atrás de Amanda, foram aumentar aquela marca. Agora ela seria mais castigada, mais exposta, porque recebeu algo que não podia. Recebeu algo que gente como Amanda não pode receber. Tentavam mostrar que o homem agiu errado. Ela não merecia o abraço porque na verdade Amanda era a prisioneira Susy.


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Drauzio Varella e a prisioneira Susy:

Há décadas Drauzio trabalha em presídios e já escreveu inúmeros livros sobre o tema. Inclusive, contando episódios semelhantes daquele ocorrido com Susy. Esses episódios não são o tema central dos livros, do mesmo modo o episódio do abraço não era o tema central do programa da Globo.

Antes de saberem o motivo da prisão de Susy, a internet passou a registrar as frases “Drauzio presidente”, “Drauzio ministro” e outras que compunham os “trending topics”. Varella se tornou herói nacional, mas não foi pelo seu trabalho de décadas, não foi pela sua dedicação ao SUS, nem por expor o ocorrido no massacre do Carandiru. Drauzio o homem que enfrentou a milícia e a corrupção para relatar como foi encontrado os corpos dos detentos.  Drauzio o homem que levou naquele domingo à noite, em cadeia nacional, um problema invisível para a sociedade.  Nada disso era motivo suficiente para a aclamação dos internautas, mas todo um tumulto foi causado por um simples gesto de humanidade.

O médico não gostou daquela distorção de foco. Ele se irritou com o que aconteceu e se manifestou na Folha de São Paulo no dia 5 de março: “Esse mundo está louco”, e continuou: “Vocês querem um Salvador Pátria. Esse é o drama do país, a gente se decepciona com um e corre atrás de outro que seja o oposto. Vamos ficar assim até quando?”.

Parece até que ele previu o que ocorreria dias seguintes. Ele foi duramente perseguido por políticos, jornalistas e internautas. Julgaram que Drauzio Varella não agiu de modo ético, não agiu de modo moral, pois ele abraçou alguém presa por estupro de menor.

Diante dessa situação talvez alguns possam invocar um problema ético-moral. De fato, isso envolve valores e, portanto, é algo que está no campo ético-moral. Mas não se trata propriamente de um dilema moral. É importante que tenhamos em mente que um dilema ético deve envolver decisões sobre valores. Isso não ocorreu. Drauzio não entrou em tensão ética quando do abraço em Susy.  Se ele conhecesse a situação jurídica inteira de Susy aí sim ele estaria diante de um dilema ético. Assim, o problema foi colocado a posteriori nas costas dele sem ter sido efetivamente um dilema ético-moral de Drauzio.

O comportamento de Varella, ou seja, sua práxis médica, tem por base o não envolvimento com a vida pessoal dos seus pacientes. Esse comportamento, segundo ele próprio, é o seu escudo contra dilemas éticos-morais. Ele não precisa ficar optando. Assim ele nos conta no livro Carcereiros. Nesse livro há o caso do médico, ele próprio, que atravessa a cidade para tentar resolver a enfermidade do doente, buscando pessoalmente o remédio de que necessitava. Só depois disso fica sabendo do tipo de crime do paciente: o estupro e morte de uma criança, além do assassinato dos avós a paulada.  Drauzio se pergunta: “Se eu soubesse disso teria dedicado tantas horas a esse prisioneiro, deixando de fazer outras tarefas do meu dia a dia? “ Ele não nos responde.

No vídeo em resposta ao caso do abraço em Susy vemos a postura do médico que segue um milenar código de ética médica, o de não deixar de atender um enfermo seja quem for.

Veja o que nós fizemos nesse período: