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IMPEACHMENT JÁ! ASSINE A CARTA: foragenocida.com

O Coronavírus pode ser natural, mas não na COVID. A COVID não é uma doença natural. Ela faz parte de uma ação biopolítica. É um mal que nasceu da vida da cidade e se espraiou pelo mundo por conta da cidade. A polis é seu campo, a política ou a biopolítica é seu meio de propagação.

Sabemos que só medidas políticas ou biopolíticas podem combater a doença. Não é uma questão médica ou de clínicas e hospitais. É uma questão de auxílio emergencial, vacinação rápida e organização social. Até os ricos – 500 nomes – estão dizendo isso: que são necessárias uma ação e a consideração em relação aos mais vulneráveis. Basta ver o manifesto de banqueiros e economistas na Folha de S. Paulo, em 21/03/2021. Pela primeira vez os ricos viram que os pobres, se ajudados pelo dinheiro, irão cumprir as regras com mais facilidade e afinco. Mudaram o discurso, antes qualquer ajuda aos pobres era tomada pelos ricos como favorecendo a vagabundagem. Só Bolsonaro, isolado, agora pensa assim.

No Brasil a fusão entre Bolsonaro e a COVID foi imediata. Geramos o Bolsovírus, como foi dito pelo filósofo Paulo Ghiraldelli na Folha de S Paulo em 21/06/2020 e em 04/02/2021. O resultado estamos vendo agora, com as mortes que se avolumam e colocam o Brasil em uma espécie de “leprosário do mundo”. Entramos pelo túnel errado da busca da “imunidade de rebanho”, como o Bolsovírus estabeleceu. Precisamos sair desse túnel. A saída é uma só: tirar a caneta Bic das mãos do presidente. Qualquer outro mandatário pode restabelecer uma racionalidade para que não fiquemos três, quatro ou cinco anos no caos.

É fundamental trabalharmos para o Impeachment. Os políticos brasileiros possuem experiência nisso. Os que não querem trabalhar no Impeachment são os traidores da população e sem dúvida serão lembrados na hora do voto.

Você que é deputado, comece a agir em favor do Impeachment de Bolsonaro. Você não precisa deixar a população morrer, não precisa colaborar com isso, e nem precisa morrer politicamente abraçado a um presidente que está se derrotando por si mesmo.

Obrigado pela sua atenção!

Placar da vida

Das tantas piadas feitas pelo governo Bolsonaro, uma das mais cruéis, sem dúvida, é a que se refere ao “Placar da vida”.

Para contextualizar, sabe-se que a Organização Mundial da Saúde (OMS) já declarou o Brasil como epicentro da pandemia da Covid-19, o que, consequentemente, significa que o nosso país está em uma situação muito frágil e complicada. Com uma alta taxa de contágio, o vírus encontrou aqui um habitat ideal para se multiplicar. Apesar da brutal subnotificação, os dados oficiais indicam meio milhão de infectados pela nova doença. O sistema de sepultamentos está em apuros, com máquinas tendo de abrir grandes valas na terra. No cemitério, os corpos que se acumulam em suas instalações frias, pedindo alguma vaga para o descanso final, perfazem 30 mil ex-cidadãos.

O “Placar da vida” são posts que aparecem nas publicações tanto da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) quanto, agora, do Ministério da Saúde. Esse placar informa o número de pacientes que tiveram a doença e não faleceram pelo coronavírus. Esses posts fazem um serviço ideológico par excellence, ou seja, trabalham com uma falsa consciência. Trazem a ideia de que o Brasil tem um governo “da vida”, não “da morte”, com o argumento de que o Planalto não faz a histeria da mídia anunciando o número dos mortos.

A falsa consciência que o governo federal deseja passar é que a Covid-19 é uma “gripezinha”, que a maioria não morrerá e que muitas pessoas pegaram a doença e não morreram. Visto que toda ideologia tem uma parte de verdade, os posts trazem um número verdadeiro de pacientes sobreviventes até então.

Em verdade, tudo não passa de um grande escárnio, pois é o governo de Bolsonaro que está usando a palavra “vida”.

Além disso, esse placar não apenas esconde as mortes por Covid-19, mas também ameniza a culpa do responsável por elas. Agora, talvez você pense: o responsável pelas mortes desses brasileiros é o agente etiológico, o SARS-CoV-2, nome de uma fita odiosa de RNA. Se seu pensamento é esse, e somente esse, você está [meio] errado. O tópico agente etiológico é uma meia verdade.

O SARS-CoV-2 é uma estrutura tão simples que divide a opinião dos cientistas sobre se é ou não um ser vivo. Ele não sobrevive muito tempo fora de nossas células e, com uma boa esfregada de detergente, sabonete ou álcool, é destruído. Como é que essa coisa ínfima, comparada à majestade e à organização do corpo humano, conseguiu o que conseguiu?

Bem, esse pedacinho de RNA conseguiu o que conseguiu porque encontrou pernas e braços humanos. Outrossim, aqui, no Brasil, o vírus vestiu a faixa presidencial. Em uma espécie de simbiose entre o desejo do vírus e o do presidente, nasceu o “Bolsovírus”. Similarmente à série infantojuvenil Power Rangers, o SARS-CoV-2 encontrou no Brasil um Megazord, ou seja, aqui, teve seus poderes ampliados pelas instituições republicanas. Elas estavam à sua disposição e ao seu serviço.

Foi assim que o “Bolsovírus” corroeu o Ministério da Saúde, o Conselho Federal de Medicina (CFM), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e estruturas que, em outros países, ajudaram a derrubar o coronavírus. Enquanto algumas nações encerram suas quarentenas, o Brasil tem um SARS-CoV-2 realizando plenamente sua vontade. Friedrich Nietzsche ficaria orgulhoso de ver um conceito vivo, a “vontade de potência”, circulando sorridente, enquanto espalha um caminho de corpos (como costuma dizer o filósofo Paulo Ghiraldelli em seu canal no YouTube). Aqui, o SARS-CoV-2 povoou as ruas e os pulmões, tanto quanto há estrelas no firmamento.

Um dia, “Bolsovírus”, com seu corpo humano, terá de pagar o preço da destruição causada por ele. Em Haia, no Tribunal Internacional de Justiça, esse “Placar da vida” não servirá para amenizar a culpa do responsável pela morte dos nossos irmãos brasileiros. Afinal, o SARS-CoV-2 não abraçaria tantas pessoas com seu manto sombrio se não tivesse recebido a espetacular ajuda de Bolsonaro!

Mariangela Cabelo
Campo Grande, 31/05/2020

Páginas: 113 e 114 do livro Pandemia e Pandemônio: Ensaios sobre biopolítica no Brasil/Cabelo, São Paulo: CEFA Editorial, 2020. Cabelo, Mariangela; Ghiraldelli Jr., Paulo. (Org.)

Devemos despolitizar o vírus?

“Politizaram o vírus”. Proferida e preferida dos médicos, cientistas e jornalistas, essa sentença, segundo eles mesmos, explica a causa do mal. A ideia é a de que a politização da pandemia é a responsável pelo sucesso de marketing da hidroxicloquina. O desprezo à opinião dos especialistas, os ataques de todo tipo a ciência e ao isolamento social seriam também frutos dessa “politização”. Será que é correto pensarmos assim?“Politizaram o vírus”. Proferida e preferida dos médicos, cientistas e jornalistas, essa sentença, segundo eles mesmos, explica a causa do mal. A ideia é a de que a politização da pandemia é a responsável pelo sucesso de marketing da hidroxicloquina. O desprezo à opinião dos especialistas, os ataques de todo tipo a ciência e ao isolamento social seriam também frutos dessa “politização”. Será que é correto pensarmos assim?

A resposta é enfaticamente um não! E podemos citar alguns motivos para isso: primeiro pela falsa relação de causa e efeito que a frase gera. Segundo que ela elimina a possibilidade de um diálogo mais esclarecedor, que poderia ajudar a traçar rotas mais claras para resolver o grande caos que se apoderou do país.

Na verdade, fica claro, para os que estudam filosofia política, a confusão feita com os conceitos básicos. Por exemplo, muitos desses médicos e cientistas acertariam se tivessem dito “ideologia” no lugar de “politização”. Ideologia significa uma falsa consciência. Na ideologia, existe uma certa verdade; não é puramente uma fake news. Evidencia-se a ideologia na questão do isolamento vertical. Para que o isolamento vertical pudesse ter força, seria necessário que ele seguisse alguma lógica. Assim, usou-se uma certa verdade: a chance de o vírus ceifar mais a vida dos idosos. Se assim o é, por que todos devem pagar o preço do isolamento social? Essa foi a ideologia do Planalto. Isso foi o que Bolsonaro queria que o ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta defendesse.

Nós, da ciência, deveríamos ficar atentos à ideologia e às suas meias verdades. A ideia do isolamento vertical estenderia a duração da pandemia se fosse colocada em prática. Colocaria a população jovem e adulta em risco, pois
eles podem morrer com a doença, apesar de em menor número se comparado aos que possuem alguma morbidade. Esses adultos, uma vez livres do isolamento vertical, chegariam em casa, pondo seus familiares mais velhos em risco, expondo-lhes ao vírus e aumentando as chances de infecção. O isolamento vertical foi descartado pela maior parte dos países, pois geraria mais mortes, um aumento do tempo para a pandemia passar e, inclusive, uma piora na economia.

Agora entendemos que a ideologia era e é, se não notada, uma inimiga da ciência. Quero enfatizar aqui que o problema não é meramente de nomenclatura ou uma disputa mesquinha de terminologias acadêmicas. O problema é começarmos uma conta utilizando a fórmula errada e as variáveis erradas. Não chegaremos a um bom resultado. Devemos tentar evitar nosso comprometimento com a ideologia, mas não com a política. Se afastarmos a política, afastaremos justamente a chave que poderia revolver os nossos problemas.

Outro motivo, e talvez o mais importante é a ideia de que a associação do especialista com a política o macularia. A palavra política parece ser um palavrão, um par de óculos embaçador que tira a clareza do discurso médico. Usar a palavra política de maneira positiva, na mentalidade dos especialistas, os deixa com pouca autoridade para falar de seus assuntos técnicos. Na verdade, nesse caso, o partidarismo é o grande medo do médico, e não propriamente a política. Digo isso pois penso no exemplo do Drauzio Varella, que, apesar de não ter medo da palavra política, não é um médico partidário. De fato, o médico partidário perde a liberdade de poder criticar todos os partidos e suas políticas. Afinal, ele não irá criticar o próprio partido. Será que todas as políticas públicas, principalmente as da saúde, merecem passar ilesas das críticas?

As vozes da ciência e da medicina devem apontar todo e qualquer erro. Se não temos isso em mente, o médico fica com medo de falar que é o presidente quem está ferrando tudo. Aliás, isso é óbvio, todos veem. Hoje, até mesmo as revistas científicas, como a Lancet, alertam que Bolsonaro precisa sair.

Portanto, o médico e o cientista que puxarem o coro a favor do impeachment não serão partidários. Prezarão, antes, pelo seu ministério, pelas instituições, pela medicina e pela própria profissão. Saber que a medicina tem um casamento profundo com políticas públicas de saúde faz parte da formação de um bom médico.

Além disso, a nossa cultura ocidental nasceu da polis e, por isso, não podemos fugir da política, pois é com ela que podemos estancar o número de almas levadas. A seguir, explico-me melhor.

Os problemas de saúde de um país não se revolvem dentro de um consultório, mas, sim, junto e justamente com políticas. Exemplos incontestes são o diabetes e a obesidade, que afligem tantos brasileiros e dispensam tantas consultas no SUS e nas clínicas particulares. A política pública de saúde que obrigou que refrigerantes, biscoitos, bolos e etc. tivessem suas quantidades de açúcar diminuídas fez mais pelo país do que anos do nosso trabalho no consultório em relação ao diabetes e à obesidade.

No quesito coronavírus, isso se repete. O trabalho do médico ajudando paciente por paciente no hospital é como um passarinho que enche o bico de água para apagar um incêndio na floresta. Já o presidente da República está com um maçarico acesso, com 10 km de diâmetro, mirando para as árvores. Será que é tão difícil ter essa clareza que as revistas internacionais tiveram?

Médicos, prestem atenção! Escutem a Lancet. Nenhum trabalho de vocês será suficiente para estancar o mal da Covid-19 do país, quando a própria peste usa a faixa presidencial, quando o próprio SARS-CoV-2 tem suas vontades atendidas pelo Bolsonaro. Enfim, do meu ponto de vista, parece que há uma falsa “isenção” da parte dos médicos. Sabemos bem o que eles fizeram “no verão passado”. Não estou tirando o mérito de os médicos irem para as ruas e protestarem contra o governo do PT e de lutarem pela sua profissão. Foi um ato lícito. No entanto, hoje, os cidadãos pedem, como brasileiros, para que lutem também pela saúde e pela ciência, pois, se elas acabarem, a própria profissão de vocês já não precisará mais ser defendida!

Mariangela Cabelo
Campo Grande, 30/05/2020

Páginas: 111, 112 e 113 do livro Pandemia e Pandemônio: Ensaios sobre biopolítica no Brasil/Cabelo, São Paulo: CEFA Editorial, 2020. Cabelo, Mariangela; Ghiraldelli Jr., Paulo. (Org.)