Devemos despolitizar o vírus?

“Politizaram o vírus”. Proferida e preferida dos médicos, cientistas e jornalistas, essa sentença, segundo eles mesmos, explica a causa do mal. A ideia é a de que a politização da pandemia é a responsável pelo sucesso de marketing da hidroxicloquina. O desprezo à opinião dos especialistas, os ataques de todo tipo a ciência e ao isolamento social seriam também frutos dessa “politização”. Será que é correto pensarmos assim?“Politizaram o vírus”. Proferida e preferida dos médicos, cientistas e jornalistas, essa sentença, segundo eles mesmos, explica a causa do mal. A ideia é a de que a politização da pandemia é a responsável pelo sucesso de marketing da hidroxicloquina. O desprezo à opinião dos especialistas, os ataques de todo tipo a ciência e ao isolamento social seriam também frutos dessa “politização”. Será que é correto pensarmos assim?

A resposta é enfaticamente um não! E podemos citar alguns motivos para isso: primeiro pela falsa relação de causa e efeito que a frase gera. Segundo que ela elimina a possibilidade de um diálogo mais esclarecedor, que poderia ajudar a traçar rotas mais claras para resolver o grande caos que se apoderou do país.

Na verdade, fica claro, para os que estudam filosofia política, a confusão feita com os conceitos básicos. Por exemplo, muitos desses médicos e cientistas acertariam se tivessem dito “ideologia” no lugar de “politização”. Ideologia significa uma falsa consciência. Na ideologia, existe uma certa verdade; não é puramente uma fake news. Evidencia-se a ideologia na questão do isolamento vertical. Para que o isolamento vertical pudesse ter força, seria necessário que ele seguisse alguma lógica. Assim, usou-se uma certa verdade: a chance de o vírus ceifar mais a vida dos idosos. Se assim o é, por que todos devem pagar o preço do isolamento social? Essa foi a ideologia do Planalto. Isso foi o que Bolsonaro queria que o ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta defendesse.

Nós, da ciência, deveríamos ficar atentos à ideologia e às suas meias verdades. A ideia do isolamento vertical estenderia a duração da pandemia se fosse colocada em prática. Colocaria a população jovem e adulta em risco, pois
eles podem morrer com a doença, apesar de em menor número se comparado aos que possuem alguma morbidade. Esses adultos, uma vez livres do isolamento vertical, chegariam em casa, pondo seus familiares mais velhos em risco, expondo-lhes ao vírus e aumentando as chances de infecção. O isolamento vertical foi descartado pela maior parte dos países, pois geraria mais mortes, um aumento do tempo para a pandemia passar e, inclusive, uma piora na economia.

Agora entendemos que a ideologia era e é, se não notada, uma inimiga da ciência. Quero enfatizar aqui que o problema não é meramente de nomenclatura ou uma disputa mesquinha de terminologias acadêmicas. O problema é começarmos uma conta utilizando a fórmula errada e as variáveis erradas. Não chegaremos a um bom resultado. Devemos tentar evitar nosso comprometimento com a ideologia, mas não com a política. Se afastarmos a política, afastaremos justamente a chave que poderia revolver os nossos problemas.

Outro motivo, e talvez o mais importante é a ideia de que a associação do especialista com a política o macularia. A palavra política parece ser um palavrão, um par de óculos embaçador que tira a clareza do discurso médico. Usar a palavra política de maneira positiva, na mentalidade dos especialistas, os deixa com pouca autoridade para falar de seus assuntos técnicos. Na verdade, nesse caso, o partidarismo é o grande medo do médico, e não propriamente a política. Digo isso pois penso no exemplo do Drauzio Varella, que, apesar de não ter medo da palavra política, não é um médico partidário. De fato, o médico partidário perde a liberdade de poder criticar todos os partidos e suas políticas. Afinal, ele não irá criticar o próprio partido. Será que todas as políticas públicas, principalmente as da saúde, merecem passar ilesas das críticas?

As vozes da ciência e da medicina devem apontar todo e qualquer erro. Se não temos isso em mente, o médico fica com medo de falar que é o presidente quem está ferrando tudo. Aliás, isso é óbvio, todos veem. Hoje, até mesmo as revistas científicas, como a Lancet, alertam que Bolsonaro precisa sair.

Portanto, o médico e o cientista que puxarem o coro a favor do impeachment não serão partidários. Prezarão, antes, pelo seu ministério, pelas instituições, pela medicina e pela própria profissão. Saber que a medicina tem um casamento profundo com políticas públicas de saúde faz parte da formação de um bom médico.

Além disso, a nossa cultura ocidental nasceu da polis e, por isso, não podemos fugir da política, pois é com ela que podemos estancar o número de almas levadas. A seguir, explico-me melhor.

Os problemas de saúde de um país não se revolvem dentro de um consultório, mas, sim, junto e justamente com políticas. Exemplos incontestes são o diabetes e a obesidade, que afligem tantos brasileiros e dispensam tantas consultas no SUS e nas clínicas particulares. A política pública de saúde que obrigou que refrigerantes, biscoitos, bolos e etc. tivessem suas quantidades de açúcar diminuídas fez mais pelo país do que anos do nosso trabalho no consultório em relação ao diabetes e à obesidade.

No quesito coronavírus, isso se repete. O trabalho do médico ajudando paciente por paciente no hospital é como um passarinho que enche o bico de água para apagar um incêndio na floresta. Já o presidente da República está com um maçarico acesso, com 10 km de diâmetro, mirando para as árvores. Será que é tão difícil ter essa clareza que as revistas internacionais tiveram?

Médicos, prestem atenção! Escutem a Lancet. Nenhum trabalho de vocês será suficiente para estancar o mal da Covid-19 do país, quando a própria peste usa a faixa presidencial, quando o próprio SARS-CoV-2 tem suas vontades atendidas pelo Bolsonaro. Enfim, do meu ponto de vista, parece que há uma falsa “isenção” da parte dos médicos. Sabemos bem o que eles fizeram “no verão passado”. Não estou tirando o mérito de os médicos irem para as ruas e protestarem contra o governo do PT e de lutarem pela sua profissão. Foi um ato lícito. No entanto, hoje, os cidadãos pedem, como brasileiros, para que lutem também pela saúde e pela ciência, pois, se elas acabarem, a própria profissão de vocês já não precisará mais ser defendida!

Mariangela Cabelo
Campo Grande, 30/05/2020

Páginas: 111, 112 e 113 do livro Pandemia e Pandemônio: Ensaios sobre biopolítica no Brasil/Cabelo, São Paulo: CEFA Editorial, 2020. Cabelo, Mariangela; Ghiraldelli Jr., Paulo. (Org.)

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