Placar da vida

Das tantas piadas feitas pelo governo Bolsonaro, uma das mais cruéis, sem dúvida, é a que se refere ao “Placar da vida”.

Para contextualizar, sabe-se que a Organização Mundial da Saúde (OMS) já declarou o Brasil como epicentro da pandemia da Covid-19, o que, consequentemente, significa que o nosso país está em uma situação muito frágil e complicada. Com uma alta taxa de contágio, o vírus encontrou aqui um habitat ideal para se multiplicar. Apesar da brutal subnotificação, os dados oficiais indicam meio milhão de infectados pela nova doença. O sistema de sepultamentos está em apuros, com máquinas tendo de abrir grandes valas na terra. No cemitério, os corpos que se acumulam em suas instalações frias, pedindo alguma vaga para o descanso final, perfazem 30 mil ex-cidadãos.

O “Placar da vida” são posts que aparecem nas publicações tanto da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) quanto, agora, do Ministério da Saúde. Esse placar informa o número de pacientes que tiveram a doença e não faleceram pelo coronavírus. Esses posts fazem um serviço ideológico par excellence, ou seja, trabalham com uma falsa consciência. Trazem a ideia de que o Brasil tem um governo “da vida”, não “da morte”, com o argumento de que o Planalto não faz a histeria da mídia anunciando o número dos mortos.

A falsa consciência que o governo federal deseja passar é que a Covid-19 é uma “gripezinha”, que a maioria não morrerá e que muitas pessoas pegaram a doença e não morreram. Visto que toda ideologia tem uma parte de verdade, os posts trazem um número verdadeiro de pacientes sobreviventes até então.

Em verdade, tudo não passa de um grande escárnio, pois é o governo de Bolsonaro que está usando a palavra “vida”.

Além disso, esse placar não apenas esconde as mortes por Covid-19, mas também ameniza a culpa do responsável por elas. Agora, talvez você pense: o responsável pelas mortes desses brasileiros é o agente etiológico, o SARS-CoV-2, nome de uma fita odiosa de RNA. Se seu pensamento é esse, e somente esse, você está [meio] errado. O tópico agente etiológico é uma meia verdade.

O SARS-CoV-2 é uma estrutura tão simples que divide a opinião dos cientistas sobre se é ou não um ser vivo. Ele não sobrevive muito tempo fora de nossas células e, com uma boa esfregada de detergente, sabonete ou álcool, é destruído. Como é que essa coisa ínfima, comparada à majestade e à organização do corpo humano, conseguiu o que conseguiu?

Bem, esse pedacinho de RNA conseguiu o que conseguiu porque encontrou pernas e braços humanos. Outrossim, aqui, no Brasil, o vírus vestiu a faixa presidencial. Em uma espécie de simbiose entre o desejo do vírus e o do presidente, nasceu o “Bolsovírus”. Similarmente à série infantojuvenil Power Rangers, o SARS-CoV-2 encontrou no Brasil um Megazord, ou seja, aqui, teve seus poderes ampliados pelas instituições republicanas. Elas estavam à sua disposição e ao seu serviço.

Foi assim que o “Bolsovírus” corroeu o Ministério da Saúde, o Conselho Federal de Medicina (CFM), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e estruturas que, em outros países, ajudaram a derrubar o coronavírus. Enquanto algumas nações encerram suas quarentenas, o Brasil tem um SARS-CoV-2 realizando plenamente sua vontade. Friedrich Nietzsche ficaria orgulhoso de ver um conceito vivo, a “vontade de potência”, circulando sorridente, enquanto espalha um caminho de corpos (como costuma dizer o filósofo Paulo Ghiraldelli em seu canal no YouTube). Aqui, o SARS-CoV-2 povoou as ruas e os pulmões, tanto quanto há estrelas no firmamento.

Um dia, “Bolsovírus”, com seu corpo humano, terá de pagar o preço da destruição causada por ele. Em Haia, no Tribunal Internacional de Justiça, esse “Placar da vida” não servirá para amenizar a culpa do responsável pela morte dos nossos irmãos brasileiros. Afinal, o SARS-CoV-2 não abraçaria tantas pessoas com seu manto sombrio se não tivesse recebido a espetacular ajuda de Bolsonaro!

Mariangela Cabelo
Campo Grande, 31/05/2020

Páginas: 113 e 114 do livro Pandemia e Pandemônio: Ensaios sobre biopolítica no Brasil/Cabelo, São Paulo: CEFA Editorial, 2020. Cabelo, Mariangela; Ghiraldelli Jr., Paulo. (Org.)

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