Você sabia que é possível passar por duas puberdades?

Na medicina, a puberdade é o período em que amaduremos nosso sistema reprodutor e adquirimos as características adultas do sexo que nascemos. Todavia, nem todos querem tais características. Na verdade, algumas pessoas podem desejar possuir as características adultas do “sexo oposto”.

Alô filosofia, por que podemos ser binários na medicina?

Na medicina, a puberdade é o período em que amaduremos nosso sistema reprodutor e adquirimos as características adultas do sexo que nascemos. Todavia, nem todos querem tais características. Na verdade, algumas pessoas podem desejar possuir as características adultas do “sexo oposto”.

Antes de mais nada, preciso fazer um adendo importante. Alguns poderão dizer: “Nossa Mariangela, esse seu discurso está um tanto binário!”. Eles terão certa razão. Contudo, hoje o assunto é endocrinologia e falarei de dois importantes hormônios. Tais hormônios são antagônicos na “régua médica” de características sexuais.n

Pessoas de outras áreas podem achar o discurso médico equivocado por ainda usar termos como “feminino”, “masculino”, “características femininas” ou “características masculinas”. O problema de fugir do vocabulário médico e dessa régua fenotípica imaginária é ficar aquém de ser entendida pelos colegas e até mesmo pelo paciente.

Anos atrás eu não estaria me desculpando por usar “características femininas” e “características masculinas”.  Porém, são as ferramentas que possuo para melhor ser entendida.

Dois hormônios, dois polos 

O equilíbrio entre dois hormônios, testosterona e estrogênio tornará o adolescente homem e a adolescente mulher. Aqui os termos homem e mulher são utilizados em um sentido limitado, significa um padrão físico que esperamos encontrar em uma determinada faixa etária.

Ao falar de características sexuais estamos imaginando uma régua em que há o polo escrito homem e o polo escrito mulher. Neste esperamos encontrar um padrão fenótipo de uma criança que nasceu com o gene XX (em TODAS suas células); com gônadas femininas; com genitália interna feminina; com genitália externa feminina; sem alterações hormonais; sem alterações no hipotálamo e/ou na hipófise; sem alterações nutricionais, sem inúmeros fatores biológicos que podem impedir alcançar o extremo da régua. (Será que é por isso que médicos odeiam a polarização? Certamente não).

Assim a frase “Na biologia/medicina só existe XX (mulher) e XY (homem)” é ostensivamente estúpida, uma falácia tão rapidamente desmentida que me parece estranho ver alguém atestando tamanha fragilidade acadêmica. É a ideia de alguém que enxerga uma régua apenas com polos. Ignorando uma lógica simples, a reta pode conter dois pontos, mas uma reta não é dois pontos.

Há inúmeras mulheres com útero, ovários e com o gene XY. Há homens com pênis e útero. Há pessoas com ovários e testículos. Há tantos padrões biológicos de sexo quanto há de fenótipos dentro dos polos que separam o padrão fenotípico do “homem” e da “mulher”.

Na verdade, para muitos a tal régua pode ser quebrada, nem se fosse uma reta possuiria serventia. Realmente, do ponto de vista cultural, apesar de permitir infinitos pontos a reta (unidimensional, sem curvas ou ângulos) é insuficiente para aqueles que não desejam tender a um sentido “feminino” ou “masculino”.

Apesar disso, essa régua é útil para a medicina e ajuda aqueles que desejam andar casas mais para a direita ou para esquerda daquilo que se espera do corpo de um homem ou do corpo de uma mulher.

Assim, há uma série de pré-conceitos, conceitos prévios, entre eles o fundamental estudo de genética e desenvolvimento embrionário humano.

O meu “torna-se mulher pelo estrogênio”, apesar de limitado frente a Simone de Beauvoir, não é comparado à limitação do “Deus só fez o homem e a mulher, portanto, só há o padrão feminino e masculino de corpo”.

__

Na abordagem endocrinológica dos homens trans, (aquele que nasceu com órgão reprodutivo feminino) rotineiramente receitamos testosterona. Com isso induzimos uma segunda puberdade. Ele poderá passar, em partes, por aquilo que ocorre com os homens cis (aqueles que nasceram com órgãos reprodutores masculinos).

Em um certo período da infância, a hipófise, uma parte do nosso encéfalo, aumenta o estímulo para a produção de testosterona.  Resulta disso o crescimento dos testículos. Estes por sua vez produzem mais o hormônio responsável pelas chamadas características masculinas.

Quais são essas “características masculinas”:

O desenvolvimento sexual masculino na sequência em que ocorre:

  • Primeiro o aumento do tamanho do escroto (a pele que fica em torno dos testículos) e aumento dos testículos. (Início por volta dos 10 anos até 17 anos)
  • Mudança da voz (o início também ocorre por volta dos 10 anos)
  • Alongamento do pênis (ao redor dos 11½ a 13 anos de idade)
  • Crescimento de pelos pubianos
  • Estirão – faixa dos 12 anos a 17 anos
  • Após dois anos do início do crescimento dos pelos pubianos, se inicia o crescimento dos pelos faciais e axilares.
  • Mudança do biotipo, crescimento muscular.

A faixa de idade para início da puberdade se encontra entre 10 e 14 anos. No entanto, pode ter início aos nove, algo considerado normal.

 E a história da segunda puberdade?

Você pode perguntar, um homem trans vai se beneficiar de receber testosterona? Já que vimos que durante a puberdade esse hormônio é responsável pelo aumento do escroto, dos testículos, do pênis, das vesículas seminais e da próstata; e lembrando que o homem trans não possui o sistema reprodutor masculino, então a resposta é simples: um homem trans que busca uma maior aproximação com os as “características masculinas” pode se beneficiar e muito da testosterona. Isso por causa do que chamamos de características masculinas secundárias. 

Talvez você já tenha ouvido esse termo “características masculinas secundárias”. Quando dizemos isso queremos falar sobre características que não fazem parte do sistema reprodutor masculino; por exemplo, o crescimento do pelo facial, a mudança da composição muscular e da voz. Inclusive a testosterona, isoladamente ou atrelada a outros procedimentos pode proporcionar um aumento importante do clitóris.

Logo nos primeiros meses utilizando o hormônio as mudanças já se iniciam. A fim de amenizar a ansiedade, deve-se esclarecer ao homem trans que tais mudanças não são imediatas.

No outro polo da régua encontra-se o estrogênio, fundamental para o desenvolvimento das mamas, vagina, ovários e útero. Da mesma forma que o homem trans, a mulher trans também pode se beneficiar do hormônio que dá características femininas, através do estímulo feito para desenvolver características sexuais secundárias.

Assim, a mulher trans adulta passará por outra puberdade, que tem como marco o aparecimento do broto mamário. Com a continuidade do tratamento, os seios continuam a se desenvolver e crescer, ocorre alterações na conformação do corpo, assim há o aumento da gordura acumulada nos quadris e coxas.

Imagine uma mulher trans passando a primeira puberdade e vendo seu corpo mudar. Ela sente o aumento dos testículos, o engrossamento da voz, o nascimento de barba.  Todas essas mudanças não são as da verdadeira puberdade, ou melhor dizendo, a da puberdade que ela deseja. Imagine agora, quantas pessoas não possuem informações médicas sobre tratamentos? Quantas pessoas usaram fóruns e comunidades de internet para saber qual hormônio usar. É um problema de saúde pública.

Mariangela Cabelo

Deixe uma resposta